OS ANTIGOS MISTÉRIOS parte 1

domingo, 2 de junho de 2013

OS ANTIGOS MISTÉRIOS


P ara que possamos compreender as origens da conspiração ocultista, em suas primeiras manifestações abertas na Europa medieval através das sociedades secretas do período, convém examinarmos as suas raízes  antigas, que podem ser localizadas no antigo Egito e nas civilizações clássicas de Roma e Grécia. Durante a Idade Média, surgiram diversas sociedades secretas baseadas nas doutrinas ocultista que afirmavam possuir antecedentes remontando quase ao início da história. As ideias místicas que elas esposavam tinham a sua origem nas crenças religiosas mais antigas conhecidas pela humanidade. Essas crenças pagãs sobrevivem à formação das grandes religiões mundiais — judaísmo, cristianismo e islamismo, adotando a sua forma externa ou operando no seu interior como uma tradição herética, secreta e esotérica.

Com a perseguição às crenças espirituais alternativas na Europa cristã medieval, os guardiões dessa sabedoria antiga tiveram de se esconder, formando sociedades secretas para preservarem os seus ideais pagãos. As duas grandes sociedades secretas formadas nesse período, ainda, que só se revelassem publicamente nos séculos XVI e XVII, foram a franco-maçonaria e a Ordem Rosa-Cruz. As crenças e práticas dessas duas fraternidades clandestinas nos dão uma ideia do funcionamento da conspiração ocultista e da visão sócio-política que ela abriga.

Enquanto a Ordem Rosa-Cruz dos Rosa cruzes continua a ser uma sociedade secreta, objeto de pouquíssima publicidade nos tempos modernos, uma considerável atenção pública tem se voltado para a franco-maçonaria recentemente. Essas sociedade tem sido apontada como uma influência potencialmente corrompedora, porque os seus membros abrangem homens de negócios, juizes e chefes de polícia, cujos juramentos e atividades maçônicas são encarados como a camuflagem ideal para o  nepotismo. Aos olhos do mundo externo, a maçonaria aparece como um clube de profissionais superiores, que querem progredir em suas carreiras pela adesão a um grupo social de elite. Supõe-se que os maços favoreçam-se mutuamente nos negócios e na concessão de empregos, enquanto a proeminência das autoridades judiciárias nas lojas maçônicas levanta suspeitas de que o curso da justiça pode ser pervertido por homens ricos reunidos em suas sombrias salas.

Os maçons têm respondido a essas acusações negando que os membros de suas lojas gozem de qualquer vantagem especial nos mundos profissionais e dos negócios. Eles vêm tentando apresentar, para o mundo externo, uma imagem respeitável, argumentando que a sua confraria não é uma sociedade secreta, mas uma sociedade com segredos. Contudo, não obstante esse exercício de relações públicas, a imagem popular da franco-maçonaria é de um grupo de homens de negócios de meia-idade que se reúnem uma vez ao mês, vestem trajes extravagantes e realizam rituais escolares misteriosos. Em muitos casos, as atividades da loja maçônica moderna talvez sejam exatamente essa pantomina excêntrica; porém, se a maçonaria é tão ridícula, por que, no correr dos séculos, tem ela atraído algumas das mentes mais brilhantes: destacados cientistas, proeminentes políticos, escritores, intelectuais, artistas, financistas e até a realeza? A resposta deve estar nos ensinamentos secretos da franco-maçonaria, raramente discutidos em público.

Em um recente sínodo da Igreja Anglicana, um relato sobre a franco-maçonaria foi apresentado para debate aos clérigos e leigos reunidos. Diversos oradores denunciaram a maçonaria como contrária aos ensinamentos do cristianismo, condenando os cristãos, especialmente os clérigos, que porventura fossem membros. Um orador chegou ao ponto de atacar a maçonaria como “blasfema”, porque — segundo ele — o se u principal ritual de iniciação, que envolve uma representação simbólica da morte e do renascimento, seria uma paródia da crença cristã na crucificação e ressurreição de Jesus  de Nazaré. Desde os seus primórdios, a franco-maçonaria tem sido alvo da ira cristã, ainda que, mais à frente neste livro, seja revelado que a Igreja Católica está infiltrada por agentes das sociedades secretas.

Por que deveriam os cristãos ser tão críticos da franco maçonaria, afora a razão óbvia de que a Igreja se opõe a qualquer sistema de crença alternativo capaz de ameaçar o seu monopólio espiritual? Novamente a resposta a essa pergunta está nos “segredos” da franco-maçonaria. Se esses segredos estivessem prontamente disponíveis ao público em geral, é pouco provável que o seu significado fosse compreendido por aqueles não-versados nas doutrinas do ocultismo e da religião antiga. Na verdade, é pouco provável que muitos dos membros comuns das lojas compreendam o que os seus segredos representam. No círculo interno da maçonaria, entre quem alcançou graus de iniciação superiores, existem maçons que compreendem ser os herdeiros de uma tradição antiga e pré-cristã transmitida desde os tempos pagãos. Os maçons medievais herdaram essa tradição secreta na forma de ensinamentos simbólicos que expressam verdades espirituais. Esses ensinamentos tiveram origem nos Mistérios pagãos, amplamente seguidos no mundo antigo.
Para compreendermos esses ensinamentos secretos — e, ao fazê-lo, situarmos em um contexto espiritual o envolvimento das sociedades secretas medievais na política internacional —, temos de examinar as presumíveis origens da franco-maçonaria no período pré-cristão. As informações sobre essas origens estão preservadas nos escritos de historiadores maçons, nas teorias formuladas por ocultistas  que têm investigado o simbolismo da franco-maçonaria e nos relatos acadêmicos das religiões pagãs influenciadoras da tradição ocultista medieval.
Historicamente, sabe-se que a franco-maçonaria especulativa originou-se das antigas guildas medievais de pedreiros* (Em inglês, que designa, indistintamente, tanto pedreiros como membros da maçonaria (N. do T.) ) construtores das catedrais góticas européias. Eles se organizavam em guildas, que funcionavam como grupos de ajuda recíproca semelhantes aos sindicatos modernos. Essas guildas usavam símbolos secretos — as chamadas marcas dos pedreiros, encontradas nas velhas igrejas —, bem como senhas e um aperto de mão especial, para q eu seus membros p pudessem se reconhecer mutuamente. Acredita-se, nos círculos ocultistas, que esses pedreiros medievais herdaram o conhecimento esotérico de seus antecedentes pagãos, conhecimento esse incorporado à arquitetura sagrada das catedrais. Ao serem fundadas as lojas da franco-maçonaria especulativa — que se opõe à operante —, nos séculos XVII e XVIII, esse conhecimento foi transformado no simbolismo que constitui, atualmente, a ase do ritual maçônico.
As associações medievais de pedreiros podiam envolver até 700 membros, que firmavam contratos com a Igreja para construir catedrais e mosteiros. Acredita-se que uma associação maçônica de pedreiros específica tenha se originado em Colônia, no século XII, a qual valia-se de cerimônias de iniciação ao admitir novos membros, denominados “pedreiros livres”. Eventualmente, essas lojas maçônicas operantes aceitavam forasteiros, contanto que provassem ser homens de erudição, ou pessoas que ocupassem uma elevada posição social. No final do século XVI, as lojas de maçons operários haviam em grande parte, desaparecido, sendo substituídas pela  franco-maçonaria especulativa, com a sua ênfase no simbolismo esotérico do Ofício como metáfora do progresso espiritual e da iluminação.
Ainda que os maçons medievais  pudessem ser vistos como artesãos práticos, também possuíam um arcabouço mítico para explicar as origens de sua atividade. Os maçons operantes também dividiam todos os conhecimentos existentes em sete artes liberais e ciências. Elas eram classificadas em gramática, ou a arte de falar e escrever corretamente; retórica, a aplicação da gramática; dialética, a distinção entre falso e verdadeiro; aritmética, ou cálculo exato; geometria, o estudo das dimensões da Terra, música e astronomia. De todas essas artes e ciências, os maçons consideravam a geometria e mais importante.
De acordo com suas crenças, a geometria fora ensinada por um patriarca antediluviano chamado Lamec que tinha três filhos. Um inventou a geometria, o outro foi o primeiro pedreiro, e o terceiro, um ferreiro, o primeiro ser humano a trabalhar com metais preciosos. Assim como Noé, Lamec foi advertido por Jeová do dilúvio, causado pela perversidade da humanidade e pela interferência dos Anjos Caídos nos assuntos mundanos. Lamec e seus filhos decidiram guardar o s  eu conhecimento em dois pilares de pedra, de modo que as gerações futuras pudessem descobri-lo.
Um desses pilares foi descoberto por Hermes Trimegisto, ou Três Vezes Maior, conhecido pelos gregos como o deus Hermes e pelos antigos egípcios como o escriba dos deuses, de cabeça, de íbis, Toth. Diz-se que a assim chamada Tábua de Esmeralda de Hermes contém a essência da sabedoria perdida de antes dos dias do Dilúvio bíblico. De acordo com fontes ocultistas, essa tábua foi descoberta em uma caverna pelo místico Apolônio de Tiana, considerado pela Igreja primitiva um rival de Jesus. A primeira versão  publicada da Tábua de Esmeralda data de uma fonte árabe do século VIII a.C., só tendo sido traduzida para o latim, na Europa, no século XIII.
Contudo, o mito da sabedoria hermética exerceu um profundo efeito sobre os gnósticos, que eram cristãos hereges em conflito direto com a Igreja Cristã primitiva, por tentarem fundir o paganismo com a nova fé. Eles também afirmavam possuir os ensinamentos secretos de Jesus, que este divulgou apenas para o seu círculo interno de discípulo. Esses ensinamentos haviam sido excluído da versão oficial do Novo Testamento, aprovada pelos concílios da Igreja reunidos para decidir a estrutura e o dogma do cristianismo primitivo. A filosofia gnóstica emergiu sob uma forma diferente na Europa medieval, com o surgimento do movimento cristão herético dos cátaros e da Ordem dos Cavaleiros Templários. A tradição hermética serviu de inspiração espiritual para muitas sociedades secretas na Idade Média, e a sua influência faz-se notar tanto na franco-maçonaria especulativa como na sociedade Rosa-Cruz.
Segundo a tradição maçônica, os pedreiros [ maçons ] se organizaram pela primeira vez numa corporação durante a construção da Torre de Babel. De acordo com Gênesis 11:4-6, essa torre fora concebida para se atingir o céu e contatar Deus. O desmoronamento da Torre de Babel destruiu a língua comum falada pela humanidade e encerrou a idade de Ouro que se seguiu ao Dilúvio. O arquiteto da torre foi o rei Nimrod, da Babilônia, que era pedreiro. Ele pôs à disposição de seu primo, o rei de Nínive, sessenta pedreiros para ajudar na construção de suas cidades. Ao partirem. Ao partirem, os pedreiros foram instruídos a se manter sempre leais entre si, a evitar dissensões a qualquer custo, a viver em harmonia e a servir o seu senhor como o seu mestre na Terra. Segundo a crença popular, os hebreus receberam os seus conhecimentos de alvenaria dos babilônios, introduzindo-os no Egito ao serem escravizados, No Egito, esse conhecimento foi influenciado pelos Mistérios e pelas tradições ocultistas dos construtores de pirâmides, versados nas técnicas da geometria sagrada.
A chave para as origens pagãs da franco-maçonaria está na história simbólica narrada aos candidatos à iniciação nos três graus da maçonaria: Aprendiz Principiante, Companheiros Artesão e mestre Pedreiro. Segundo o saber maçônico, a base dessa lenda é a história semimítica da construção do templo do rei Salomão, em Jerusalém. A edificação foi vista como repositório da sabedoria e do simbolismo ocultista antigo, tanto pelos franco-maçons como pelos Cavaleiros Templários.
O rei Davi iniciou a construção do templo em Jerusalém e, depois de sua morte, seu filho Salomão completou a obra. Para construir o edifício, Salomão recrutou pedreiros, artistas e artesãos de países vizinhos. Especialmente, enviou uma mensagem  ao rei de Tiro, perguntando se podia contratar os serviços de seu mestre construtor, Hiram Abiff, que era versado em geometria. Hiram era filho de uma viúva, tendo aprendido o ofício de artesão trabalhando com bronze. Devido ao seu talento artístico, Salomão nomeou Hiram arquiteto-chefe e mestre-pedreiro do templo a ser construído em Jerusalém.
Hiram concluiu o templo num período de sete anos (esse número tem uma significação especial na tradição ocultista e na maçonaria), mas essa realização foi empanada por sua morte misteriosa e violenta. Certa vez, ao meio-dia, durante o descanso dos pedreiros, Hiram fez uma visita ao templo para verificar o andamento do trabalho, que se aproximava do fim. Ao entrar no pórtico do templo, atravessando a entrada flanqueada pelos dois pilares do portão, um de seus colegas pedreiros aproximou-se de Hiram, solicitando o segredo da senha do Mestre Pedreiro. Hiram negou-se a fornecer essa informação secreta, dizendo ao trabalhador que ele receberia no momento propício, depois de avançar mais em sua carreira. O pedreiro, insatisfeito com a resposta, golpeou Hiran, que seguiu aos tropeções, aturdido e sangrando, até o segundo portão do tempo. Ali, foi abordado por um segundo pedreiro, que fez a mesma pergunta e, ao ser-lhe negada a resposta, golpeou Hiram, que acambaleou até a terceira entrada (ocidental) do templo, onde outro pedreiro o aguardava. O processo se repetiu e, dessa feita, o arquiteto-chefe morreu do terceiro golpe.
Os três pérfidos pedreiros carregaram o corpo de Hiram do templo até o topo de um monte vizinho, onde cavaram uma cova rasa e o enterraram. Marcaram o local do túmulo com uma acácia e, à tarde, como de hábito, retornaram ao trabalho. Quando a falta de Hiram foi notada, uma equipe de busca foi organizada, mas esta levou quinze dias para descobrir o seu corpo. Salomão foi informado e ordenou que o corpo de Hiram fosse exumado e enterrado novamente, com uma cerimônia religiosa completa e as horas devidas a um artesão de seu quilate. Os três assassinos acabaram sendo descobertos, julgados e condenados à morte pelo seu crime.
Examinando-se essa lenda à luz da situação religiosa no reinado de Salomão, alguns fatos interessantes vêm à tona, descortinando-nos o simbolismo pagão oculto da franco-maçonaria. Primeiro, na época em que Salomão ocupava o trono de Israel, Tiro era conhecida como um centro da adoração da Deusa. Ainda que seja considerado um importante devoto de Javé (ou Jeová), Salomão mantinha extensa correspondência com o rei pagão de Tiro, tendo-lhe solicitado que enviasse o seu mestre construtor — que devia estar ocupado na construção de templos dedicados à veneração da Grande Deusa e — para ajudá-lo a projetar e construir o seu templo a Javé.
Uma leitura cuidadosa do Antigo Testamento revela que, quando os hegreus se reinstalaram em Canaã, depois de escaparem da escravidão no Egito, a adoração de seu deus tribal, Javé, sofreu forte resistência pelos habitantes nativos que reverenciavam a deusa da fertilidade Asserá ou Astarte e o seu consorte masculino. A situação, quando o culto de Jeová foi introduzido em Canaã, pode ser comparada ao início do período medieval na Europa, quando os missionários romanos tentaram converter as tribos pagãs, e a África do século XIX, quando os colonizadores brancos forçaram os nativos a adotar o cristianismo. Além disso, as discrepância no mito hebreu da criação, registrado no Gênesis, mostram claramente que o judaísmo primitivo foi fortemente influenciado pelas crenças pagãs das tribos nômades ancestrais dos israelitas. Ao estabelecerem a religião de Javé, os patriarcas do Antigo Testamento se valeram da rica estrutura da mitologia existente nos países vizinhos, incluindo Suméria e Babilônia. Em particular, os mitos do Jardim do Éden e do Dilúvio são identificáveis como contribuições externas enxertadas no sistema de crenças judaico.
O javeísmo somente se tornou a religião dominante do Israel antigo através das campanhas militantes de uma pequena elite de sacerdotes patriarcais, na maior parte do tempo — mas nem sempre — apoiada pela monarquia e pela classe dirigente. O povo comum resistiu-lhe bravamente, apoiado pelos membros heréticos das classes dominantes. O conflito acarretado ainda pode ser detectado no judaísmo ortodoxo, onde o Supremo Criador é representado como nem masculino nem feminino. Um filósofo judeu medieval afirmou que “Deus não é um corpo e tampouco pode receber atributos corpóreos (sic), e Ele não tem semelhança com nada“, A despeito dessa tentativa de apresentar a Divindade como uma entidade abstrata, a maioria dos rabinos judeus encaravam Javé como de natureza masculina. O seu título alternativo de Adonai, que se traduz como “Senhor”, confirma essa crença.
O antigo conceito de uma deidade andrógina somente sobreviveu nos ensinamentos secretos do sistema místico conhecido como Cabala, a doutrina esotérica da religião judaica, na imagem feminina da Shekiná ou Noiva de Deus. Nas sinagogas judaicas, a Shekiná é acolhida no pôr-do-sol de sexta-feira , nas preces celebrantes do início do Sabá. Nessas preces, a Shekiná é acolhida como a Noiva de Deus e, segundo os ensinamentos cabalistas, a criação só pode se manifestar através dela. Essa idéia é reforçada pela crença popular de que a Shekiná se materializa, de forma invisível, sobre o leito da noite de núpcias, sugerindo resquícios dos antigos ritos da fertilidade realizados em honra da deusa.
Antigas memórias da adoração da deusa também sobrevivem no mito judaico da demônia Lilith, inspiradora de desejos sexuais masculinos através de sonhos eróticos. Segundo os ensinamentos cabalísiticos, Lilith foi a primeira esposa de Adão, antes de Eva, ensinando-lhe as artes do encantamento mágico. De acordo com a sabedoria ocultista, de sua união ilícita foi gerado o reino elemental dos elfos, das fadas e dos gnomos. Lilith não era, originalmente, uma figura demoníaca, podendo ser identificada com a deusa sumeriana intitulada Senhora das Bestas, representada sob a forma de uma coruja. Lilith simboliza o aspecto escuro da Grande Deusa da antiga religião pagã, em seu aspecto de mulher fatal ou sedutora. Esse aspecto da feminilidade sempre rejeitado pelas culturas patriarcais, cujo puritanismo sexual o transformou em um símbolo demoníaco, pela incapacidade de lidar com as poderosas energias eróticas a ele associadas.
Inicialmente, a adoração das deidades da fertilidade de Canaã era parte integrante da religião judaica. A deusa Asserá, o seu consorte El e o seu filho Baal — significando o Senhor — eram bastante venerados. Efígies da Deusa foram erigidas por todo o Israel, conforme descrito nos livros do Antigo Testamento, Reis, Crônicas, Juizes, Deuteronômio, Êxodo e Miqueías. Conta que Gideão destruiu um altar de Baal por ordem de um anjo (Juízes, 6: 25-31) e existem referências à adoração do deus e da deusa da fertilidade em altares erguidos no templo de Jerusalém.
Como Salomão figura nessa tradição de adoração da Deusa? Durante a Idade Média, o rei hebreu adquiriu uma reputação infamante de mestre em magia, capaz de evocar os espíritos elementais, e diversos manuais de magia exibiram o seu nome no título )por exemplo, A Clavícula de Salomão) ou a autoria destes lhe era creditada. de um modo geral, ele era visto como um poderoso mago, curandeiro e exorcista e, atualmente, alguns cristãos de fé renovada o denunciam como um adorador do diabo que afastou os israelitas do verdadeiro Deus. No apócrifo Livro da Sabedoria, escrito no século I.d.C., cita-se Salomão dizendo: “Deus me deu o verdadeiro conhecimento das coisas como elas são; uma compreensão da estrutura do mundo e do funcionamento dos elementos do  início e final das eras e o que vem entre elas.... os ciclos do ano e as constelações... os pensamentos dos homens... o poder dos espíritos... as virtudes das raízes... tudo, secreto ou manifesto , eu aprendi.” [ Sabedoria, 7:17-21.]
Além de seus atributos mágicos e poderes ocultos, Salomão é visto por alguns estudiosos como um adorador secreto da Deusa. A conversão de Salomão ao paganismo e o seu culto a deuses estranhos são atribuídos a seus casamentos com princesas estrangeiras, que introduziram os seus costumes religiosos na corte (I Reis 11:1-8). Especula-se, ainda, que a legendária Rainha de Sabá apresentou ao rei herege as doutrinas ocultistas de sua terra (situada na África ou na Arábia). Ao visitar Salomão, não só trouxe camelos carregados de especiarias, ouro e pedras preciosas, mas incluiu em seu séquito sacerdotes que iniciaram o monarca judeu nos Mistérios da antiga religião pagã.
o Antigo Testamento narra que Salomão “sacrificava e queimava incenso nos lugares altos” (I Reis 3:3), que eram  os locais dos santuários dedicados à adoração da Grande Deusa. Os indícios existentes mostram que, durante 200 dos 370 anos de história do templo de Jerusalém original, ele serviu, total ou parcialmente, para a veneração da Deusa. Quando um dos profetas de Javé denunciou a obstinação de Salomão em favor de um jovem chamado Jeroboão, que se tornou o novo rei (I Reis 11:29-40), a adoração dos deuses pagãos reduziu-se por um breve tempo. Em II Reis 23:4-7, consta que o sumo sacerdote Helcias destruiu os santuários da deusa Asserá, que Salomão erigira em todo o Israel.
Desafortunadamente para os seguidores de Javé, a escolha de Jeroboão como novo líder religioso de Israel foi um erro de cálculo. o jovem logo retornou ao culto do deus-touro pagão (I Reis 12:33), desgraçando-se. O culto da Deusa reforçou-se ainda mais com a chegada, em Israel, da princesa Jezabel, a “grande meretriz” original, filha do rei de Sídon e sacerdotisa da fé pagã. A sua imagem de promíscua desavergonhada advém, evidentemente, da sexualidade explícita dos ritos realizados por Jezabel para a Deusa, que horrorizaram os sacerdotes puritanos de Javé. Sob a influência de Jezabel, o seu marido, o rei de Israel Acab, construiu um altar para Baal e um bosque sagrado para a Deusa (I Reis 16:30-33). Consta que 850 sacerdotes de Baal e Asserá participaram de um pródigo banquete organizado pela nova rainha. Ela adorava Astarte e, nas ruas de Jerusalém, fogos sagrados eram acesos, bolos de mel condimentados eram assados, libações de vinho eram deitadas ao solo e incenso era queimado, como uma oferenda sacrifical à deusa da fertilidade. Jezabel acabou destronada e morta pelos adoradores de Javé, devido aos seus excessos eróticos. No entanto, o culto da Deusa sobreviveu por muitos anos e, quando iniciou a sua cruzada para restaurar o javeísmo, Josias teve, primeiro, de destruir os altares e santuários aos deuses pagãos, erigidos pelo povo comum (II Reis 23:4-15).
O adorador da deusa, Salomão, havia convidado de Tiro, um centro da adoração pagã, o mestre construtor Hiram Abiff, para ser o principal arquiteto do templo de Jerusalém. Hiram foi assassinado ao término do trabalho, em circunstâncias já descritas, que se afiguram uma morte ritual ou um sacrifício humano, Como Hiram fora o projetista de templos pagãos, parece provável que tenha incorporado elementos do paganismo na arquitetura do templo de Salomão. De fato, o templo foi construído em um estilo pagão, com um vestíbulo, uma nave e um santuário interno, cuja entrada era guardada por dois pilares.
A entrada principal do templo era de grande importância simbólica, por ser flanqueada por dois pilares, historicamente conhecidos como Joaquin e Boaz. Eles formavam a estrutura do pátio externo ou pórtico do templo, onde — conforme a lenda — os pedreiros construtores do edifício se reuniam. Tem sido afirmado que esses dois pilares foram posicionados de modo a imitar os obeliscos construídos nas entradas do templos egípcios. Os mais famosos dentre eles foram erguidos por ordens do faraó. os mais famosos dentre eles foram erguidos por ordens do faraó Tutmés III, em Heliópolis ou Cidade do Sol, no século XV a.C. Esses pilares, por alguma razão desconhecida chamados de Agulhas de Cleópatra, podem ser atualmente encontrados às margens do Tâmisa, em Londres, e no Central Park, em Nova Uork. os símbolos na base do obelisco americano foram identificados como sinais maçônicos. Tutmés é considerado por alguns ocultistas modernos o lendário fundador da Ordem Rosa-Cruz.
Os dois pilares frontais do templo de Salomão também guardam semelhanças com os símbolos da fertilidade cananeus tradicionais. Os templos dedicados à Deusa em Tiro teriam — ao que se diz — pilares de pedra de formato fálico em suas entradas. Esses pilares eram o foco dos ritos de fertilidade realizados em honra de Astarte em suas festas especiais. Esses pilares também têm sido associados aos monólitos usados por Lamec e seus filhos para preservar nos símbolos hieroglíficos gravados nas superfícies o seu antigo conhecimento. Os cabalistas os têm identificado como símbolos dos princípios masculino e feminino, pelos quais o Universo passou a se manifestar, conforme exprime o símbolo da Árvore da Vida. Além disso, ocultistas e maçons concordam em que esses dois pilares representam as energias masculina e feminina, que são a base da criação. A sua posição, em ambos os lados da entrada do templo dedicado à deusa, indica que essa passagem pode representar os lábios femininos. na crença religiosa antiga, os tempos da Deusa quer de Astarte, Ishtar ou Ísis eram projetados como símbolos de seu corpo, o que se refletia em sua arquitetura sagrada.
A parte mais sagrada do templo de Salomão era o santuário interno ou Sagrado dos Sagrados, que simbolizava o útero da Deusa e era o repositório da Arca da Aliança, que continha a legislação sagrada dos hebreus concedida por Javé a Moisés no monte Sinai. Somente os sumos sacerdotes de Javé podiam penetrar no santuário interno, onde ficava guardada a  Arca de ouro e acácia. A tampa da arca era uma placa de ouro, sobre a qual ficavam ajoelhadas efígies dos guardiões místicos da Aliança, os querubins. Eles se fitavam mutuamente e tinham grandes asas cobrindo a Arca. Tratava-se do trono de Deus, onde Javé supostamente descia para se comunicar com o Seu sumo sacerdote.
De acordo com o professor Raphael Ktav, em seu livro The Hebrew Goddess, os querubins que guardavam a Arca da Aliança no templo tinham a forma de figuras femininas desnudas e aladas. A palavra querubim significa “mensageiro” e, na mitologia hebraica, refere-se a um intermediário, de origem divina, entre a humanidade e Deus. Os dois querubins do Sagrado dos Sagrados foram descritos, pelo místico judeu Filo, escrevendo no século I.d.C., como símbolos da natureza dualista de Deus e dos princípios masculino e feminino da criação. Filo considerava a deidade adorada pelos antigos hebreus como andrógina, possuindo tanto características masculinas como feminina. Segundo um relato, um dos querubins era masculino e outro, feminino.
Se Hiram Abiff era adorador pagão da Deusa, tendo sido responsável pelo projeto de seus templos em Tiro, qual o significado do seu assassínio ritual, em Jerusalém, pelas mãos dos colegas pedreiros? Nos antigos ritos da Deusa, a morte ritual ou sacrifício de seu consorte, ou de um sacerdote representando-o, figurava com proeminência. Esses elementos sacrifical, na adoração da Deusa, era comum no Oriente Médio, devendo ter sido bem conhecido pelos israelitas. Tal aspecto sacrifical também vinha acompanhado do mito da ressurreição do deus morto — encontrado na lenda de Hiram Abiff, em seu enterro e exumação pagão, é a história de Ísis e Osíris, no antigo Egito. O mito exerceu profundo efeito no desenvolvimento dos Mistérios pagãos do mundo clássico, tendo também influenciado o cristianismo primitivo.
Na mitologia egípcia, Ísis e Osíris representam os mais antigos soberanos do delta do Nilo, nos termos imemoriais. Durante o seu reinado, o Egito floresceu, porque as duas divindades civilizaram a terra e a sua gente, anteriormente bárbaros selvagens entregues ao canibalismo e a prática sexuais pervertidas. Ísis e Osíris introduziram um código legal, a agricultura, as artes e os ofícios, os templos e a veneração correta dos deuses. Devido a esses feitos, o povo egípcio adorava os seus soberanos, venerando-os como seres divinos.
Porém Osíris possuía um rival e inimigo, o seu irmão gêmeo Set (ou Typhon, significando, em grego, “insolência” ou “orgulho”). Set queria governar o país e estava, constantemente, conspirando contra a família real. Durante um afastamento de Osíris, em que Ísis estava governando sozinha, Set tramou, com 72 conspiradores, a morte do rei. Ele havia, secretamente, medido o corpo de Osíris, e construiu uma arca especial capaz de conter perfeitamente o rei. No retorno de Osíris, ele convidou o rei e os conspiradores para uma festa de boas-vindas. Ísis alertou o marido para não ir, mas Osíris riu e disse nada Ter a temer de seu frágil irmão.
Na festa, todos os presentes admiraram a arca adornada com jóias feita por Set, e ele prometeu dá-la de presente à pessoa cujo corpo nela se encaixasse. Um após o outro, os convivas o tentaram, mas tinham o tamanho errado. Finalmente, Osíris entrou na arca e Set e os conspiradores fecharam a tampa, pregaram-na e a selaram com chumbo derretido. Eles então, atiraram o esquife no Nilo.
Quando Ísis soube do assassinato de seu marido, foi tomada de dor. na crença egípcia, o corpo tinha de ser enterrado com os ritos fúnebres corretos, para que a alma não ficasse vagando eternamente pela Terra. Ísis pôs-se à procura do corpo de Osíris, subindo e descendo o Nilo, e perguntando a quem encontrasse se havia divisado a arca. Finalmente, algumas crianças contaram que tinham visto o esquife na boca do rio, flutuando em direção ao mar. A rainha descobriu que ele tinha ido parar no litoral de Biblos derrubou a árvore, sem perceber o ataúde de Osirís preso no tronco, transformando-a em um pilar para o teto de seu palácio.
Quando Ísis descobriu o ocorrido, navegou até Biblos, onde, valendo-se de ardis, tornou-se uma aia na casa real, servindo a rainha daquela terra, também chamada Astarte. Esse, é claro, também era o nome da deusa da fertilidade adorada em Tiro, Sídon e pelos israelitas em Canaã. Através de sua amizade com a jovem rainha, Ísis persuadiu o rei a cortar a árvore liberando o corpo de Osíris. Ela levou o corpo de  seu marido de volta ao Egito, e o pilar de tamargueira tornou-se um objeto de culto em Biblos.
depois de retornar ao Egito, Ísis deixou a arca  em um local seguro, enquanto procurava o filho Horus. Entretanto, Set soube de seu retorno e, durante uma caçada, descobriu o esconderijo da arca. Em sua ira, ele desmembrou o corpo de Osíris, espalhando os 14 pedaços por todo o Egito. Quando Ísis foi informada desse novo ultraje, percorreu todo os país e, sempre que encontrava uma parte do corpo, erguia um santuário para marcar o lugar. Cada um desses sítios sagrados ficava em um monte, e o local do sepultamento foi marcado com uma árvore, significando que Osíris se erguera de entre os mortos. A décima Quarta parte do corpo de Osíris — o seu pênis — jamais foi achada, por Ter sido engolida por um peixe. isís fez uma réplica de ouro do pênis de seu marido, enterrando-a em Mendes, sede de um templo dedicado ao culto do deus-bode. Nos tempos medievais, o Diabo era, às vezes, chamado de Bode de Mendes, porque nesse templo, no antigo Egito, rituais grotescos eram realizados, envolvendo sacerdotisas nuas que mantinham relações sexuais com bodes. Nos julgamentos medievais de bruxas, as mulheres eram acusadas de haverem mantido relações sexuais com o Diabo, que aparecia em forma de carneiro ou bode.
Osíris tornou-se o foco do culto da ressurreição no Egito dinástico, e os seus adoradores acreditavam  que, pela prática de seus ritos, conquistariam a vida eterna após a morte. Como Osíris havia introduzido a cevada e o trigo no Egito, e sua principal festa religiosa coincidia com a colheita, ele tem sido reconhecido como um deus da vegetação que morreu no outono e renasceu na primavera. o seu mito, portanto, assemelha-se a outros deuses da fertilidade do Oriente Médio, tais como Adônis, Átis e Dionísio.
Credita-se a Osíris a introdução da vinha e das uvas no Egito e, nos Mistérios gregos, Dionísio, ou Baco, era adorado como o deus patrono dos vinhedos. Muitas vezes, ele era simplesmente representado como uma face babada esculpida em uma árvore, ou a sua imagem era um pilar decorado com uma máscara barbada cercada de folhas. Essas representações assemelham-se às máscaras folhadas que se dizia representações que se dizia representarem o personagem do folclore inglês, Jack-in-the-Green, ou o Homem Verde, que se pode ver nas igrejas de época anteriores à Reforma. Comparem-se, também essas imagens com a história do corpo de Osíris preso nos ramos de uma árvore, que mais tarde viria a ser venerada como um objeto sagrado.
Dionísio e Osíris têm, ambos, vínculos com o culto de Adônis, cuja adoração era comum no Oriente Médio dos tempos antigos. Adônis era reverenciado pelos povos semitas da Babilônia e Síria, sendo originalmente conhecido como Tamuz. o nome foi alterado para Adônis, que significa “Senhor”, e as suas conexões lingüísticas com o Adonai judaico costumavam descrever um dos aspectos de Javé. Adônis ou Tamuz nasceu na meia-noite de 24 de dezembro e irrompeu para a vida do tronco de uma árvore. Ambos os eventos sugerem paralelos com Osíris e Jesus. tamuz é o deus-menino consorte da deusa babilônica do amor e da guerra, Istar, venerada pelos sumérios como Inana e pelos cananeus como Astarte. Istar era identificada com a Lua e a estrela da manhã Vênus (O símbolo associado, na Bíblia judaico-cristã, ao anjo rebelde Lúcifer, mais tarde erradamente identificado com Satã ou o Diabo) e fugura no mito babilônico do Dilúvio, tomado de empréstimo pelos hebreus.
no mito de Tamuz e Istar, o jovem deus, que é o seu amante, é morto por um javali e transportado para o Mundo dos Mortos. A deusa, enlutada pela perda, viaja para a região das sombras, em uma tentativa de recuperar o consorte perdido. Enquanto está afastada da Terra, as colheitas fracassam, o gado se torna estéril e homens e mulheres perdem a capacidade de praticarem o sexo. Em cada um dos sete portões do Mundo dos Mortos, a deusa é forçada a remover um item de seu vestuário, até, finalmente, conseguir penetrar o reino dos mortos despida e indefesa, Como resultado de sua súplica aos soberanos do Mundo dos Mortos, Tamuz é ressuscitado, Istar retorna à terra e a fertilidade é restaurada.
O culto pagão ao deus da fertilidade Tamuz nas vizinhanças do templo de Jerusalém é mencionado pelo profeta do Antigo Testamento, Ezequiel. Descrevendo uma visão propiciada por Javé, o profeta diz, em Ezequiel 8:14:” Levou-me à entrada da porta da casa do Senhor (o templo de Salomão), que está da banda do norte, e eis que estavam ali mulheres assentadas chorando a Tamuz”. *(Em algumas citações bíblicas, usando a clássica tradução portuguesa de João Ferreira de Almeida (N. do T.) Ele, então, prossegue descrevendo um grupo de homens de pé nos recintos do templo, voltados para leste e adorando o Sol  amaneira dos pagãos.
nos mitos de Osíris, Dionísio e Adônis/Tamuz, estão contidos os elementos-chave da morte, do renascimento e da fertilidade. Esses elementos, juntamente com os papéis que esses deuses representavam como consortes da Deusa Mãe, são fundamentais para a compreensão da lenda de Hiram Abiff, das origens pagãs da franco-maçonaria e da visão utópica constituindo o ideal político das fraternidades ocultistas derivadas da maçonaria. Consoante mitos antigos, o soberano de Tiro também se chamava Hiram e diz-se que teria sido um rei-sacerdote do culto de Adônis. De acordo com as crenças religiosas dessa época, esse rei-sacerdote foi sacrificado para a Deusa, ao se tornar velho demais para representar Tamuz na festa anual dedicada ao deus. Ao morrer, a sua alma supostamente passou para o corpo de seu filho ou do substituto escolhido, que reinou como rei-sacerdote em seu lugar. É possível que Hiram Abiff tenha sido o filho do rei-sacerdote de Tamuz? Ele é, certamente, chamado de filho da viuva (a deusa do luto) e esse título foi adotado pelos maçons medievais em suas autodescrições.
 Segundo as tradições cabalísticas da construção do templo de Salomão, os artesãos provenientes de Tiro eram pagos com trigo, vinho e azeite. Essas eram as oferendas sacrificais associadas aos cultos da fertilidade dos deuses mortos, como Osíris e Adônis. As mesmas tradições relatam como Salomão enviou o rei Hiram, de Tiro, até o Inferno, pela evocação de um demônio. Quando o rei retornou, ele narrou a Salomão tudo que tinha visto e aprendido no reino infernal. Os rabinos sugerem Ter sido essa a verdadeira fonte da sabedoria de Salomão. É possível que o rei hebreu tenha se tornado um discípulo de Hiram, tendo sido por ele instruído nos Mistérios da deusa Istar ou Astarte e da sua descida ao Mundo dos Mortos. Existem referências, na abundante correspondência entre os dois reis, consistindo em enigmas que Salomão tinha de resolver, sugerindo que alguma informação secreta estivesse sendo transferida para o monarca hebreu em forma de código.
os primeiros historiadores maçônicos encaravam Hiram Abiff como um representante simbólico de Osíris, o deus egípcio da morte e do renascimento. Ele é assassinado no portão ocidental do templo, onde o Sol se põe. na mitologia egípcia, o Mundo dos Mortos ou Átrio de Amenti, regido por Osíris como o Senhor dos Mortos, está situação sob o oceano ocidental. Osíris tradicionalmente ergue-se de entre os mortos ao norte, que, na mitologia egípcia, é astrologicamente regido pelo signo do zodíaco Leo, o Leão .No terceiro grau da franco-maçonaria, o candidato, representando Hiram Abiff, é erguido de entre os mortos por um aperto de mão  maçônico especial conhecido como “cumprimento do leão”.
Tanto nos Mistérios maçônicos como nos egípcios, o “deus” ressuscitado é enterrado sobre uma montanha, em uma tumba marcada por uma árvore. Osíris era também chamado de Senhor da Acácia, mesma árvore plantada no túmulo de Hiram Abiff pelos seus três assassinos. Em Canaã, o culto à deusa Astarte envolvia árvore e pilares erguidos em bosquetes sagrados e montes, como símbolos de sua divindade. na arquimaçonaria real, o candidato à iniciação é informado de que o nome sagrado de Deus é, de fato, Jebalon. Esse nome foi decifrado como uma referência codificada aos dois grandes deuses do culto da fertilidade do Oriente Médio — Osíris e Baal — em combinação com o deus tribal hebreu Jeová. Na maçonaria, Deus também é chamado de Grande Arquiteto do Universo, refletindo a importância da geometria sagrada no projeto de construções sagradas baseadas no axioma hermético “Assim acima... como abaixo”. Esse axioma ensina a antiga filosofia de que o plano material da existência é um reflexo do reino espiritual.
As aspirações políticas da franco-maçonaria, reveladas em sua influência sobre os movimentos revolucionários e proto-socialistas da Europa dos séculos XVIII e XIX, podem ser remontadas ao mito da Idade de Ouro, no Egito pré-dinástico, sob o reinado de Osíris e Ísis e, antes do Dilúvio, aos mitos babilônio e hebreu da criação. na lenda de Osíris, o rei-deus é uma influência civilizadora em uma terra habilitada por selvagens primitivos sem noções de moralidade ou lei. O sacerdócio de Osíris era herdeiro de uma utopia política expressa através de símbolos espirituais. Essa foi a visão compartilhada pelas sociedades secretas da Europa medieval, associadas ao surgimento da franco-maçonaria e da doutrina política que lhe serviu de núcleo.
De acordo com a tradição ocultista. Hiram Abiff foi, secretamente, um membro de uma antiga sociedade conhecida como os Artífices de Dionísio, surgida por volta de 1000 a.C., quando o templo de Jerusalém estava sendo construído. Eles tomaram o nome do deus grego e possuíam sinais e senhas secretas pelos quais se reconheciam mutuamente, estavam divididos em capítulos ou lojas governadas por um Mestre e se dedicavam a ajudar os pobres. Eles estabeleceram lojas em todas as nações mediterrâneas, e a sua influência se expandiu, a leste, até a Índia. Com a ascensão do Império Romano, lojas foram fundadas na Europa central e ocidental, inclusive nas Ilhas Britânicas.
Os Artífices estavam ligados a outra sociedade secreta conhecida como os Jônios. Os membros dessa  sociedade haviam se estabelecido na Ásia menor, dedicando-se a disseminarem a civilização, especialmente em sua forma grega, no que eles encaravam como o mundo bárbaro. Supõe-se que os Jônios tenham sido responsáveis pelo famoso templo da deusa Diana, em Éfeso. Os arquitetos dessa sociedade, junto com membros dos Artífices de Dionísio, vieram de Tiro trabalhar no templo de Salomão. Mas tarde, os Artífices passaram a se chamar Filhos de Salomão, usando o seu selo mágico — dois triângulos entrelaçados, representando a união das energias masculina e feminina — como a sua marca registrada. Os Artífices que se estabeleceram em Israel fundaram os Cassidens, guilda de artesãos especialistas no reparo de edifícios religiosos. A nova seita contribuiu para a fundação do grupo místico judaico conhecido como os Essênios, que se tornaram famosos com a descoberta dos pergaminhos do mar Morto. Na tradição ocultista, Jesus de Nazaré foi um essênio, e existem conexões entre esse grupo e os Cavaleiros Templáros medievais.
Os Artífices de Dionísio acreditavam que os templos que construíam tinham de obedecer aos princípios da geometria sagrada, refletindo o plano divino, Com o uso da simetria, do sistema de medidas e do cálculo de proporção, os Artífices construíram edifícios religiosos representando o corpo humano como um símbolo do universo. A sua teoria arquitetônica baseava-se na filosofia hermética e na crença pagã panteísta na unidade entre o universo e Deus. Eles também promoviam o ideal político da Utopia terrestre, expressa sob forma simbólica. A humanidade era o bloco de pedra bruta que o mestre pedreiro ou Grande Arquiteto (Deus) estava, constantemente, moldando e polindo, a fim de transformá-lo em um objeto da perfeição. o martelo e o cinzel do pedreiro tornaram-se as forças cósmicas que davam forma ao destino espiritual da humanidade. Na maçonaria especulativa do século XVIII, o martelo simbolizava o poder divino. Ele era usado para medir os precintos abençoados da loja, indo até onde o grão-mestre conseguia atirar o martelo em qualquer direção.
O arquiteto e mestre construtor romano, Vitrivius, nascido no século I.d.C., foi influenciado pelo Artífices de Dionísio. As suas teorias formaram a base da arquitetura do Império Romano e, com a redescoberta do conhecimento clássico, no século XVI, também exerceram impacto sobre os maiores arquitetos da Renascença. O conceito de Virtrivius do teatro mágico representando o microcosmo do mundo como símbolo do macrocosmo do universo espelha-se na famosa frase de William Shakespeare, “O mundo todo é um palco, e todos os homens e mulheres meros atores...”, e no nome de seu teatro, The Globe [ O GLOBO]. Pretende-se que Shakespeare tenha sido um iniciado Rosa-Cruz e, como tal, tenha estado familiarizado com as idéias de Vitrivius e dos Artífices de Dionísio.
Segundo a tradição maçônica, César Augusto foi nomeado patrono dos pedreiros, na Roma antiga, e diz-se Ter sido grão-mestre do Colégio Romano de Arquitetos. Essa sociedade estava organizada em guildas, com símbolos baseados nas ferramentas de seu ofício, como o fio de prumo, o esquadro, os compassos e o nível. O Colégio tinha rituais iniciatórios envolvendo o mito pagão da morte e do renascimento, familiares através dos Mistérios egípcios. Um templo construído e usado pelo Colégio foi desenterrado em Pompéia, cidade destruída pela erupção vulcânica do monte Vesúvio, em 71 d.C. Entre os símbolos descobertos no templo, estava o duplo triângulo de Salomão, a prancha de decalque preta e branca (usada inicialmente pelos Artífices de Dionísio), a caveira, o fio de prumo, o bastão do peregrino e o manto esfarrapado. Esses símbolos emergiriam, mais tarde, na maçonaria medieval e na franco-maçonaria especulativa.
As tradições do Colégio Romano parecem ter sido transmitidas para a Ordem dos Mestres de Comacini, que floresceu durante o reinado dos imperadores Constantino e Teodósio, no século IV d.C., quando o cristianismo estava emergindo como a religião dominante do Império Romano. Conforme a lenda, a Ordem foi fundada por ex-membros do Colégio Romano, que se viram forçados a fugir dos bárbaros. Eles estabeleceram a sua sede na ilha de Comacini no lago de Como, e, em 643 d.C., conquistaram o patrocínio do rei da Lombardia, que lhes deu o controle sobre todos os pedreiros e arquitetos da Itália. A Ordem de Comacini dividia-se em lojas governadas por grão-mestres, seus membros usando aventais e luvas brancas e se reconhecendo mutuamente por sinais e senhas secretas.
A Ordem foi responsável pelos estilos lombardo e romântico de arquitetura, podendo ser vista como o elo entre os arquitetos e pedreiros construtores dos templos pagãos e os mestres construtores das catedrais góticas da Europa ocidental, na Idade Média cristã. Existem indícios de que os pedreiros de Comancini viajaram por toda a Europa e, segundo o historiador Bede, chegaram a atingir a Inglaterra anglo-saxã, onde foram responsáveis pela construção de uma igreja em Northumbria.
Ainda que os pedreiros que construíram as igrejas e catedrais medievais fossem nominalmente cristãos, a profusão de símbolos e imagens pagãs, nesses antigos edifícios, indica que muito ainda eram, no fundo, pagãos. Já fizemos referências às imagens do Homem Verde achadas em velhas igrejas, mas outros símbolos pagãos também podem ser encontrados, inclusive Sheela-na-gig. trata-se de representações grosseiras do corpo feminino desnudo, na forma de mulheres de pernas abertas e exibindo a vulva. Elas foram identificadas como imagens da deusa pagã da fertilidade cultuada na época dos celtas. outros entalhes encontrados em igrejas medievais retratam monges e sacerdotes em posições sexuais com meninas dissolutas, realizando atos homossexuais ou usando cabeças de animais.
Exemplos ainda mais estranhos de escultura em pedra [ masonry] pagã podem ser encontrados. Ao pesquisar um livro sobre bruxaria — a sobrevivência medieval da antiga religião pagã — , o autor Michael Harrison topou com a obra do falecido professor Gregory Webb, da Universidade de Cambridge, que, em 1946, era secretário da Comissão Real de Monumentos Históricos. Webb era uma autoridade em arquitetura medieval e, no final da Segunda Grande Guerra, foi designado pelo governo inglês para pesquisar antigas igrejas ao sul do país que se achavam danificadas pelos bombardeios alemãs. Em uma das igrejas examinadas, uma bomba nazista havia deslocado o topo do altar, revelando o interior pela primeira vez, desde o século XIV.
No interior do altar danificado, Webb e a sua equipe descobriram um falo de pedra, que fora cuidadosamente escondido no interior oco. de início, Webb pensou que essa descoberta seria única, mas ele começou a examinar outras igrejas, à cata  de sinais de paganismo. Em 90% de todas as igrejas da pré-Reforma construídas antes da irrupção da peste bubônica, no final do século XIV, quando sua construção foi interrompida por um longo período, Webb descobriu que altares escondiam símbolos da fertilidade que dedicavam as igrejas cristãs à velha religião pagã.
A par com suas crenças religiosas pagãs, as guildas maçônicas medievais também tinham pontos de vista políticos avançados para a época, que expressavam livre e convictamente. À semelhança de seus antecedentes pagãos, os maçons eram os promotores de uma visão utópica do futuro da humanidade. Num período em que o feudalismo não passava de um sinônimo de escravidão, as guildas de artesãos haviam se organizado em grupos de ajuda mútua, pregando as virtudes da democracia e dos direitos individuais centenas de anos antes que essas metas políticas atingissem o povo comum.

Essa imagem pública de associações protetoras que usam os seus poderes para promover o comércio justo e a ética dos negócios escondia o fato de que os franco-maçons medievais constituíam uma sociedade secreta de origens pagãs que promoviam, clandestinamente, opiniões políticas radicais. De acordo com a doutrina esotérica oculta pela construção do templo de Salomão, os maçons acreditavam ser o seu dever espiritual aperfeiçoar o templo do corpo humano como um símbolo do Divino. Os iniciados ocultistas, o verdadeiro poder por detrás das sociedades secretas, sabiam que, para atingir o seu objetivo, teriam de usar o sistema político e, no século XII, passaram a colocar o seu plano  em funcionamento.

continua...

fonte: slideshare.net 

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